acordo num país diferente. Não muito longe de onde eu chamava de casa; mas aquela vida passada parece tão distante. O ano está apenas começando mas faz tanto frio que estranho. Pelo menos a língua é semelhante. Un cafezito, por favor. Lembro que não tomava café na outra vida. Estou aqui e me sinto bem. Diferente das últimas semanas. O café é amargo demais. Acho que alguns hábitos não mudam tão rápido. Volto para o meu quarto. Onde antes eu via uma cama espaçosa e minha namorada, vejo agora quatro camas, umas em cima das outras. Tenho dúvidas se era aqui que eu queria estar, mas por enquanto tá bom, já não preciso chamar lugar nenhum de lar.

escolhi ficar na cama de cima na noite anterior, mas não sei dizer porque. Talvez assim esteja mais protegido de qualquer perigo mundano, embora não saiba bem o que poderia ser. O colchão está coberto por um lençol barato meio rasgado, amarelo desbotado. As cores dos lençóis nas outras camas do pequeno quarto estão tão gastas que não consigo nem definir o tom. Mas talvez eu seja meio daltônico mesmo como minha irmã costumava dizer. Me contento em lembrar da vaga expressão que minha mãe gostava de usar: é cor-de-burro-quando-foge. Vejo no chão minha mochila de oitenta litros destoante naquele ambiente, azul petróleo forte e brilhante, e penso que está limpa demais para um andarilho. O quarto de madeira escura é simples e não faz um bom trabalho em manter o calor aqui dentro. E a cama de cima não está fazendo efeito: me sinto exposto neste lugar e não sei porque direito. Fazia tempo que não me sentia assim.

não estou sozinho e isso é de certa forma, reconfortante. Sempre fui uma pessoa introspectiva e sentir conforto na presença de estranhos é estranho para mim. Escuto histórias interessantes de um casal jovem de americanos que conheci na noite anterior durante o check-in no alojamento. Agradeço em silêncio à minha mãe, professora de inglês, que sempre botava filmes legendados pra eu aprender o idioma. Gostei dos dois logo de cara. Calle, um loiro cabeludo musculoso, meio Califórnia meio caipira, alto como eu mas muito mais forte do que eu, escuto, tem apenas 25. Abbi, 23, loira também, não fala muito e passa a maior parte do tempo olhando para o celular. Penso nos cochichos secretos que eu trocava com minha ex-namorada sobre os casais que não se olham pois estão perdidos nas telas. Uma lembrança boba que me faz pensar que os Americanos estão aqui juntos e nós, não. Engraçada esta mania que temos de nos comparar com quem não somos. Tem algo neles que me atrai.

o sol se levanta num céu azul muito mais opaco do que estou acostumado. Meu dedo congela ao abrir a janela de vidros sujos mas o aroma de lavanda da manhã me convida para dançar. Visto um tênis tipo 'barefoot' pois não acho que seria sano vestir um tênis tipo descalço. A corrida pela orla Argentina é rápida e fria. Havia algo de especial em correr somente de shortinhos nas quentes areias Brasileiras. Não demoro pois lembro que o casal dos Estados Unidos está indo para El Chaltén, pequeno vilarejo Patagônico onde eu havia planejado viver a primeira grande aventura deste ano. Chego, tomo banho e café da manhã às 11 horas. Ovos e aveia com um mel que encontro no armário da cozinha compartilhada do alojamento. Se eu conseguir a carona, falarei que não tive tempo de comer um breakfast esta manhã - mas tomei um brunch. Talvez essa seja uma boa maneira de quebrar o gelo da distância entre nossas culturas.

ao meio-dia o céu está menos opaco mas o vento gelado é de inebriar os pensamentos. Estou sentado na calçada esperando por eles com minha mochila destoante ao lado. Se não aparecerem, será a primeira frustração dessa viagem. Engraçada esta mania que temos de contar as primeiras coisas que fazemos quando mudamos de lugar.

um Renault Clio primeira ou segunda geração encosta e um cabeludo com sotaque ligeiramente western acena para eu entrar. O porta-malas está lotado e o banco de trás um pouco zoneado. Vejo mochilas, snacks baratos daqueles com cheiro de chulé, latas vazias de refrigerante, alguns equipamentos de fotografia e um chapéu. Enfio como dá o meu armário ambulante de oitenta litros no que parece ser o armário ambulante deles. Apesar de termos dormido no mesmo quarto, ao entrar na bolha intimista do pequeno veículo sinto que estou quebrando algumas camadas de intimidade e invadindo o universo destas duas pessoas desconhecidas. Abbi está com o celular na mão, mas assim que eu me acomodo ela vira, me olha nos olhos, me recebe com um sorriso caloroso e me oferece algo para comer. Ela tem olhos pequenos e esverdeados. Agradeço, e digo que já tomei meu brunch. Calle engata a primeira, foca fixamente no retrovisor e prepara-se para sair. Não tenho certeza se está me encarando ou olhada para a rua pois está usando um par de óculos largos e escuros do tipo aviador. Millôr Fernandes uma vez me disse (em algum de seus escritos) como são belas as pessoas que não conhecemos bem. Olho pela janela e vejo a primeira cidade desta viagem ficando para trás.

a paisagem é pitoresca. Uma estrada que parece não ter mais fim, reta em sua maior parte, entre vastos campos castigados pelo frio e o degelo da neve. De vez em quando aparecem algumas plantações, que não sei dizer bem do quê de tão secas. Mas talvez seja minha falta de conhecimento sobre esta região. Quero saber mais sobre eles. Pergunto quais as maiores dificuldades que enfrentam no dia-a-dia como nômades. O americano olha pelo retrovisor novamente (dessa vez tenho certeza que olha para mim) e conta sem mudar a expressão que a proximidade constante dos dois e falta de estrutura fixa para trabalhar atrapalham às vezes. Mas que assim escolheram e estão extremamente confiantes com o futuro. Sentem que tudo está funcionando pois mantêm uma comunicação aberta e levam a parceria muito à sério. Estou gostando da conversa e quero fazer parte da tribo deles.

introduzo assuntos de interesses que podemos ter em comum. As pessoas se abrem mais facilmente para outras da mesma tribo - que falam algum idioma em comum. Pelo menos foi isso que aprendi num curso de programação neurolinguistica no ano passado. Viagens, fotografia, empreendedorismo. Logo percebo que temos muito para trocar. Calle me conta com entusiasmo que estão de férias mas que vivem em uma van pelas estradas dos EUA há cerca de dois anos. Tudo que possuem levam sobre quatro rodas. Inclusive o companheiro de quatro patas. Trabalham com fotografia. Mais especificamente de casamentos. Mais especificamente em locais de natureza selvagem. Abbi saca o celular do bolso com uma naturalidade de um pistoleiro do velho oeste e me mostra o trabalho que realizam e divulgam pelo Instagram. Estão juntos há oito anos e casaram-se antes de se mudarem para o automóvel-próprio. No banco de trás, ponho o chapéu e penso que os americanos parecem mais preparados para entender e dominar os rodeios da sociedade do que eu. Engraçada essa mania que temos de achar que the grass is always greener on the other side.

paredões de rochas aparecem quebrando os padrões do horizonte e do nosso papo. Estamos próximos a base do notório Fitz Roy e muito longe do seu pico a 3.405 metros acima do nível do mar. Vejo os olhos do casal brilhando e sinto que o meu também está. Calle faz uma curva brusca e paramos ali mesmo, no meio do nada. Não se vê carros de lá nem de cá. Abbi se deita no meio da estrada enquanto seu parceiro tira do porta-malas uma câmera dessas profissionais com uma lente comprida que deve pesar mais do que a minha mochila de oitenta litros.

a vida parece ser excitante e instigante pela lente deles, como se qualquer coisa fosse possível. Enquanto se divertem contemplando e registrando imagens da montanha, reflito sobre a beleza deste momento e desejo profundamente que encontros como este se repitam pelo resto do ano. Engraçada esta mania que temos de querer prever o que vai acontecer na nossa vida. Mas hoje entendi que as verdadeiras aventuras não são planejadas - elas simplesmente acontecem.


curioso sobre Calle e Abbi? Veja mais no post que fiz no instagram da minha agência:

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"agora que nossa família vê que a gente vive bem e ganha dinheiro, eles aceitam melhor o estilo de vida que escolhemos. E não é que a gente só vive em espaços públicos dos Estados Unidos! Pagamos impostos também... e estamos contribuindo para a sociedade." - este jovem casal de empreendedores passa uma mensagem forte e séria através das atitudes que tomam perante a vida. Vivem em uma van pelas estradas dos EUA há cerca de dois anos. Tudo que possuem levam no seu automóvel. Inclusive o companheiro de quatro patas. Mas o bagageiro está lotado de experiências. Trabalham com fotografia. Mais especificamente de casamentos. Mais especificamente em locais de natureza selvagem. Atendem seus clientes em parques nacionais e registram momentos de tirar o fôlego: para quem vive e para quem vê. Neste momento estão recebendo reconhecimento por seus trabalhos em mídias de grande visibilidade no mundo todo. Estão juntos há 8 anos. Casados. Ele 25, ela 23. Há muitas dificuldades no dia a dia pela proximidade constante e falta de estrutura fixa para viver e trabalhar. Mas assim escolheram e estão extremamente felizes e confiantes com o futuro. Sentem que tudo está funcionando pois mantém uma comunicação aberta e levam a cumplicidade mútua e a parceria muito à sério. a mensagem e o exemplo que eu levo deles para mim? A sua vida pode acontecer da forma que você desejar que ela aconteça.

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