sempre fantasiei que quando alienígenas viessem xeretar nosso planeta, todas as diferenças humanas de credo, religião, cor, raça, classe e seja lá o que for mais que já inventaram para nos segregar cairiam por terra.

e é exatamente por isso que você tem escutado tanto por aí que "estamos no mesmo barco" diante dessa ameaça que está assustando a nossa espécie.

tipo a Arca de Noé, sacou.

nesta nova fase da sociedade, olhando de um pontqo de vista biológico, nossos comportamentos estão sendo regidos por um organismo mais inteligente, mais forte e mais rápido do que nós. E não são nossos presidentes. E isso está, por um lado, trazendo maior consciência coletiva para todos nós (você usa máscara para evitar ser um agente transmissor) e por outro lado, também está trazendo um novo paradigma de distanciamento social (você evita ter contatos que não são 'essenciais' com outras pessoas).

o conflito é o maior catalisador para a mudança. A questão é que conflitos como esse podem deixar marcas e cicatrizes profundas. E talvez seja por isso mesmo que seja um agente eficaz em promover transformação de longo prazo. Quando você vê e sente as consequências de algum erro de forma permanente, você dificilmente repetirá aquela mesma atitude.

como um relacionamento amoroso conflituoso que te ensina lições pro resto da vida e te faz mais... seletiv@. Ou quando você fez aquele corte bizarro no dedo que você lembra toda vez que você pega uma faca e evita que você faça besteira novamente.

então o meu questionamento do momento é: será que o atual conflito que estamos enfrentando vai deixar cicatrizes suficientemente profundas na nossa sociedade para promover as mudanças tão importantes que estamos precisando ver em nossos comportamentos?

a história mostra que não.

o "novo normal" está se apresentando de duas formas:

  • todo mundo que passou pela quarentena e "lock down" teve, de alguma forma, sua rotina modificada de maneira forçada. Mesmo se você continuou trabalhando, você foi colocado sem querer numa posição de mais tempo livre, mais choque de realidade, mais oportunidades para refletir sobre a sua vida. E o que aconteceu?

as pessoas começaram a fazer pão. Outras crochê. Outras começaram a cantar. Pessoas que eu nunca imaginei começaram a meditar, fazer yoga. Outras que só falavam de maquiagem começaram séries de pensamento positivo. De forma geral, vejo uma forte tendência de pessoas buscando uma vida mais alinhada com suas vontades e desejos mais profundos... e sem medo de expor isso.

nós fomos forçados a encarar nossos conflitos internos de frente. E estamos assumindo esse processo de transformação e fazendo aquelas coisas que sempre tivemos vontade, agora, e não depois.

isso é lindo de se ver. Finalmente conceitos de liberdade, flexibilidade, introspecção, alinhamento, conexão e interdependência estão se tornando cotidianos para muita gente. Mas nada do que está acontecendo no nível individual é novo. Muita gente já vinha nesse processo há anos. Um grande amigo Caio Malufe acredita que a pandemia simplesmente acelerou processos - não criou. Mas acredito que isso ter se tornado um movimento uníssono e em massa é com certeza uma novidade que estamos observando e participando em primeira mão.

  • o outro lado do novo normal é a forma como estamos convivendo nas ruas conforme voltamos aos poucos ao convívio social (nos lugares onde já foi liberado). As pessoas estão caminhando mais longe umas das outras. Às vezes até mudando de calçada. Os cumprimentos acontecem à distância e quando queremos conversar com alguém a aproximação é cautelosa e meio sem jeito. Ficou mais difícil ler a expressão das pessoas com quem interagimos pois, bem, a maior parte do tempo tem uma barreira de poliéster cobrindo boa parte dos seus músculos faciais. Parece que aquela bolha da distância de conforto que todos nós tínhamos duplicou de tamanho.

são medidas e efeitos estranhos, mas necessários. E assim como no primeiro exemplo, essas medidas foram de certa forma forçadas goela abaixo no nosso cotidiano. Mas nesse caso, não são desejos se desabrochando, mas dores futuras sendo evitadas.


a importância do conflito na história da nossa evolução

confesso que sempre olhei para os conflitos humanos fazendo pouco caso. Não vejo glamour nenhum em histórias e filmes de guerra. Não gosto de patriotismo vazio e de amor ao time cego. Acho besta nos compararmos por ego, tamanho, conta bancária, popularidade ou beleza.

é claro que essa perspectiva simplista não me isenta de pensamentos conflitantes, principalmente nestes últimos pontos citados. Sou humano como você, man@. Mas isso não significa que eu preciso sair por aí descontando minhas insatisfações e dúvidas internas nas outras pessoas.

porque no fim das contas, somos todos iguais. É por isso que nos 'unimos' diante de uma ameaça externa. Seja de organismos originados no planeta Terra ou não.

e isso mostra que todo e qualquer conflito que a gente lida externamente nas nossas relações humanas são provindos da nossa própria imaturidade interna. Isso vale pra você, pra mim e pros nossos queridos líderes que estão nos representando pelo mundo hoje.

mas uma coisa é fato. Os conflitos mais marcantes da nossa história deixaram resquícios duradouros. Muitos negativos, mas muitos positivos no longo prazo.

as guerras mais pesadas na europa resultaram num povo muito mais maduro para lidar com os limites das outras pessoas num nível de convívio social e uma economia muito mais sólida. Uma ditadura horrenda no Japão foi uma das grandes responsáveis pela padronização do notório respeito mútuo que existe entre os japoneses hoje. Os ataques das torres gêmeas nos estados unidos trouxe uma união de forças sem precedentes para o povo americano.

essse efeitos positivos de longo prazo acontecem porque os conflitos representam também uma oportunidade. Uma oportunidade de mudança. Quando somos colocados frente a frente com o pior dos mundos, somos obrigados a tomar decisões que são mais assertivas para a nossa sobrevivência.

porque a única forma que podemos sobreviver individualmente é pensar coletivamente.


a origem e os efeitos dessas pandemias

muita gente acha que o surto do Covid-19 é uma espécie de chamado da mãe-terra para seus filhos tratarem melhor do seu habitat. Você sabe, tem muita merda rolando pelo esgoto bem debaixo dos nossos pés capitalistas. Desmatamento, extinção de espécies, aquecimento global, doenças crônicas, depressão, suícidios e por aí vai... e o que dizem é que essa padanmia, que resultou em pânico, muitas mortes e muito tempo pra você pensar sozinho, poderia ser uma espécie de aviso para o ser humano que habita e rapidamente corrói a superfície terrestre.

eu queria mesmo que fosse... mas a história, com diversas pandemias e surtos da mãe natureza me mostram que este caso não é, nem o primeiro nem o último. Esse chacoalhão que estamos levando é só um peteleco perto de outras porradas que a espécie humana já levou. Mãe Gaia seria uma deusa muito zangada se este fosse o caso, desde 1350 com o surto da peste negra, assolando a espécie humana com esse tipo de "aviso".

a Peste Bubônica matou cerca de 75 milhões de pessoas. Relatos escritos nos contam que, em alguns lugares, onde o vírus matou mais de 70% da população, havia mais mortos para serem enterrados do que vivos para enterrá-los. E pior... algumas cidades da europa foram totalmente devastadas sem restar 1 pessoa pra contar a história.

como pode ver, o ser humano já enfrentou situações muito piores. Mas ei, eu não estou dizendo que esta situação atual não é ruim e, principalmente, não poderia ter sido evitada. Muito pelo contrário.

hoje em dia temos informação e conhecimento suficientes para evitar estas pandemias, que são manifestações naturais da biologia terrestre, que podem se intensificar dentro de um ambiente desequilibrado. Bill Gates já havia falado bem publicamente há 5 anos atrás que uma pandemia como essas ia acontecer em breve. O cara não tem bola de cristal, gente, ele tem um cerebro analítico e captou e interpretou os sinais das últimas epidemias que aconteceram nos últimos anos... e depois de tantas pandemias que aconteceram na nossa história.

você já está cansado de ouvir que o Coronavirus foi provavelmente originado em um wet-market em Wuhan na China. Mais especificamente no 'Mercado de Peixe' de Huanan. É capaz que você já tenha ouvido falar também que estes mercados de fazendeiros chineses também foram a origem do SARS (severe acute respiratory syndrome) em 2003... e outras epidemias semelhantes. Pois bem, e você sabia que agora, exatamente como aconteceu nas últimas epidemias, como o número de infecções já caiu por lá, esses mercados já estão reabrindo novamente?

porque? Porque o buraco é muito mais embaixo. Não é sobre as condições precárias de higiene dos mercados. Não é sobre qualidade deplorável do ar naquela região. Não é sobre o consumo desenfreado de produtos ou sobre o consumo predatório de certos alimentos mundialmente.

os efeitos devastadores vistos no nosso exterior são simples indicadores da nossa falta de ética biológica. Nossa falta de respeito com a biologia que compõe o nosso planeta e a nossa biologia interna. E respeito tem a mais a ver com atitude do que com consciência.

e agora que transitamos para essa nova realidade, a pergunta que paira pelo ar é: o que acontecerá após a pandemia?

eu quero muito que essa experiência de merda se transforme numa mudança positiva e, principalmente, duradoura. Mas isso seria um resultado no mínimo surpreendente. Ser humano e mudança são duas palavras conflitantes. Nosso cérebro foge de mudança como o diabo da cruz. Basta ver as mudanças que precisavam ter sido feitas para evitar a propagação do vírus e o que aconteceu de fato. Na mioria dos casos, agimos tarde. Na maioria dos casos, ignoramos os presságios, os avisos, os fatos.

a única coisa que essa pandemia pode transformar positivamente de fato, é você e eu. Mas isso não vai acontecer por causa do medo. Não vai acontecer por limites estabelecidos por agentes externos. Estes são apenas planos de contingência que tem apenas o poder de abrir os nossos olhos.

o trabalho desgraçado de realizar a mudança tem que ser feito por nós mesmos, dia após dia, pelos próximos meses e anos que estão por vir.

neste momento estamos em modo reativo. Todas as nossas atitudes são uma simples reação de sobrevivência diante desse ameaça. Na rua, para evitar o contágio. Em casa, para evitar o tédio. E tudo bem. Mas quando tudo isso passar, você vai continuar promovendo atitudes positivas para si e para o seu entorno?