enrolo minha camiseta cinza favorita e coloco meticulosamente dentro da minha nova mochila de oitenta litros. É dessas camisetas que levam uma montanha inóspita e uma frase inócua no peito.

esta é a oitava, acho que está bom. - falo para ela com a voz abafada pelo saco azul naval que chamarei de casa (apesar de fazer vezes de um armário) pelos próximos doze meses da minha vida, se tudo correr conforme o [não] planejado.

acho que sim. - responde ela com a voz atravessada, enquanto se movimenta sem parar entrando e saindo do nosso armário, numa dança que não reconheço nem a melodia nem o passo e nem a dançarina.

não sou muito bom com datas, ou falo isso como desculpa para aliviar o peso da minha recorrente desatenção com elas, mas acho que foram mais de três mil dias juntos. Até então. Mas era assim que costumávamos falar. Contávamos os dias, não os anos. Feliz dia. Feliz agora. Mais uma dessas bobeiras melancólicas que faziam o nosso relacionamento tão único e especial. E bobo. Como todos os bons apaixonados em estado letárgico.

tiro minha camiseta cinza favorita do mochilão. Minha mente grita para eu tirar todas, desfazer toda a mala e refazer tudo que está escorrendo entre os nossos dedos naquele momento. Permaneço em silêncio.

separo a camiseta cinza que venera alguma face desconhecida de alguma montanha que não lembro o nome, pois lembrei que preciso vestir algo para pegar o avião dali a algumas horas. E que roupa melhor vestir num voo, que pode muito bem ser o seu último, senão a sua camiseta favorita com alguma frase de impacto de J. R. R. Tolkien sobre explorar o desconhecido.

gosto dessa, vou com ela. - falo para a estranha que agora parece um pouco impaciente, dentro do nosso, até então, apartamento, e que está cansada de saber que é a minha favorita, na esperança de receber pelo menos um sinal de reconhecimento ou afago.

- aham...

mas também, reflito por um instante, que roupa melhor usar em qualquer outro dia da sua vida se não a sua camiseta favorita com uma montanha e uma frase que, talvez, se aplique muito mais a um conto fantástico sobre algum mundo longínquo do que à jornada que estou prestes a embarcar.

enfio minha camiseta favorita de volta no meu armário. Um lado da minha mente, que não sei exatamente qual, tenta desvencilhar o nó do outro lado da minha mente. Estou indeciso, não sei que roupa ir. Mas não era por isso que eu tinha apenas camisetas cinzas? Na verdade não sei, se devo mesmo ir.

como pode desandar tão rápido, uma história de tantos anos e os planos de uma vida? Esta mochila deve estar acima do peso, consto, ao levantá-la no ar pela primeira vez, como uma embarcação, lançada ao mar pela primeira vez.

visto a minha camiseta cinza favorita com montanha e frase. O beijo de despedida é seco e rápido. Mas também não sei se algum dia já foi dado algum beijo longo e molhado, na bochecha. Como pode acabar tão seca, uma história de uma vida e os planos de tantos anos?

gosto de ouvir as letras bobas e melancólicas do Renato Russo nestes momentos. Sempre me acalmam. Talvez seja nostalgia. Ou talvez goste do estado letárgico.

sintonizo na minha cabeça que se as pessoas me perguntarem se foi tudo por causa de um coração partido, vou dizer que, na verdade, foi tudo por causa desta minha camiseta favorita e esta frase, que saí por aí para entender o que significa, e esta montanha, que saí por aí para ver se encontro.