Uma pessoa não precisa estar a vida inteira ao seu lado para se tornar única e inesquecível.

Em meio às tormentas sociais e comportamentais da década de 60, o ousado garoto Caio começou os cursos de Letras e Artes Cênicas na UFRGS. Largou ambos. Começou então a escrever para algumas revistas e jornais conceituados, e outros nem tanto, e logo estava sendo perseguido pelo DOPS(Departamento de Ordem Política e Social), lê-se, na verdade, Departamento de Opressão Social, o órgão que reprimia movimentos contrários ao regime militar brasileiro. Salve-se quem puder!

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Foi por isso que corri, tentei fugir, mas quando tem que ser, não adianta, será.

Só lhe restava fugir. Foi pra Campinas, e depois para Espanha, depois Suécia, Países Baixos, Inglaterra, França e finalmente retornou a Porto Alegre em 1974, mas não sossegou. Mudou-se para o Rio de Janeiro, e depois para São Paulo em 1985. Em 1994, após um breve retorno a França, voltou para São Paulo com uma irrefutável sentença de morte. Descobriu-se portador do vírus HIV, que lhe tiraria a vida dois anos depois. Caio morreu no mesmo dia que Mário de Andrade, 25 de fevereiro, com 47 anos de idade. No meio tempo, escreveu tanto quanto Mário.

Tô me afastando de tudo que me atrasa, me engana, me segura e me retém. Tô me aproximando de tudo que me faz completo, me faz feliz e que me quer bem. Tô aproveitando tudo de bom que essa nossa vida tem. Tô me dedicando de verdade pra agradar um outro alguém. Tô trazendo pra perto de mim quem eu gosto e quem gosta de mim também. Ultimamente eu só tô querendo ver o ‘bom’ que todo mundo tem. Relaxa, respira, se irritar é bom pra quem? supera, suporta, entenda: isento de problemas eu não conheço ninguém. queira viver, viver melhor, viver sorrindo e até os cem. tô feliz, tô despreocupado, com a vida eu tô de bem.
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“O fotógrafo da fragmentação contemporânea”. Assim é conhecido Caio Fernando Abreu. Contista, cronista, novelista. Escritor como poucos, humano como poucos. Caio F., como assinava todos os seus escritos, nasceu no município de Santiago, no Rio Grande do Sul, local mais conhecido como “Terra dos Poetas”. Fama esta adquirida por ser berço de diversos escritores importantes, entre eles, claro, Caio. Caio, somente Caio. Talvez pela forma escancarada com que se expressava em seus textos, ou talvez pela humildade palpável e sentimentos desgarrados que deixava transparecer, Caio.

Tentaram me fazer acreditar que o amor não existe e que sonhos estão fora de moda. Cavaram um buraco bem fundo e tentaram enterrar todos os meus desejos, um a um, como fizeram com os deles.
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Inquieto por toda sua vida, o escritor expressava seus mais profundos e sinceros conflitos internos num papel em branco, sem rédeas. Até que o branco via-se vermelho. Caio desprendia-se de qualquer regimento moral e cultural ao escrever. Suas palavras afiadas não se limitavam a adjetivos inofensivos e não seria espantoso se cada uma de suas frases apontasse o seu lápis um pouco mais a cada movimento. Seu grafite era como sangue, o lápis, estilete. Cortava todas as correntes que amarravam(e amarram) a sociedade e seus comportamentos regrados e insossos.  

O que foi dito bêbado, foi pensado sóbrio.

O homem escrevia, o escritor encantava. Caio desejava ser amado por seus escritos, e é. Suas obras sobrevivem o teste do tempo e sua visão realista e contemporânea não poderia ser mais aplicável ontem, hoje e muito provavelmente, amanhã.

Até a próxima! : P